Paixão

“Escolha um trabalho que você ama e não terá que trabalhar nenhum dia da sua vida.”

Posso entender a boa intenção de Confúcio por trás dessa frase, mas confesso que a considero um tanto perigosa. Vou explicar por quê.

Eu me sinto privilegiada por, de fato, trabalhar com algo de que gosto muito: uma fusão de comunicação e tecnologia. Isso é consequência de escolhas que fiz ao longo da minha vida: investir tempo em escrever, estudar para tal e me posicionar dessa forma no mercado. Mas também é uma questão de oportunidades: felizmente, encontrei empresas que acreditaram em mim e se mostraram dispostas a pagar por algo que eu já fazia de graça.

Acontece que nem todo mundo tem isso à disposição. Às vezes, o que você ama é montar painéis de recortes e tecidos, conversar com velhinhos, assistir Netflix o dia todo ou modificar objetos – e não necessariamente alguém irá precisar que você faça isso a ponto de te oferecer um salário. Talvez seu passatempo até seja rentável, mas você ainda não se organizou para fazer dele uma profissão ou não recebeu uma proposta de emprego que permitisse deixar sua atual ocupação de lado. É muito, muito importante entender que isso não te torna um fracassado, um deslocado ou qualquer outra coisa. Não se sinta culpado por não estar “perseguindo os seus sonhos”.

Há também outro ponto: a partir do momento em que um hobby se torna uma obrigação, ele deixa de ser algo despretensioso. Você vai precisar fazê-lo em momentos que talvez esteja menos disposto e será mais exigente consigo mesmo em relação à qualidade. Isso cria uma pressão que não existia antes, e é preciso muito discernimento para separar as coisas. Um feedback negativo do seu chefe não significa que você estava enganado sobre o seu “talento”. Trabalho é trabalho, e sempre existirão momentos de frustração, estresse, cansaço. Faz parte do pacote.

Quando converso com alguém sobre este assunto, tento explicar ao máximo no que acredito: o ideal é encontrar algo que seja gratificante e flua da forma mais natural possível, para que a sua rotina se equilibre e não se torne, com o tempo, desgastante e insustentável. Cada pessoa pode encontrar seu próprio propósito, mas o propósito principal de todos nós é simplesmente ser feliz e – spoiler! – isso não está relacionado apenas ao que você faz para ganhar dinheiro. Ser bem-sucedido tem significados muito além desse.

Por fim, como em outros dilemas da vida, tudo depende do seu ponto de vista. Uma pesquisa (não tenho aqui o link mas vou procurar para incluir) entrevistou funcionários de um hospital responsáveis pela limpeza com uma simples pergunta: o que você faz? Enquanto alguns disseram “Só limpo o chão, nada demais”, houve quem respondesse “Eu promovo um ambiente limpo e agradável para que as pessoas possam se curar e se recuperar de doenças, e tenho orgulho disso”.

Faça o que você ama. Mas, especialmente, tente amar o que você faz. Prometo que, se não ficar mais fácil, pelo menos ficará mais leve.

Ponto

Somos apenas crianças querendo tomar conta das próprias vidas.

Árvores que, enquanto sofrem as insolações e tempestades, tentam manter suas folhas no melhor estado possível – cada uma delas.

Artesãos que, construindo ampulhetas, pensam controlar a areia que cai – e a velocidade em que cai.

Andarilhos que traçam rotas desconhecendo a existência de atalhos e bifurcações.

Constantes em nossa própria inconstância. Inconstantes no mundo constante.

(Texto escrito em 2011, sem alterações.)

Leveza

É que existe esse outro lado, essa outra forma de ver e viver as coisas.

Existe a sensação de serenidade, de estar em paz com o coração, deixar a mente se preocupar só com o que realmente importa, sorrir sinceramente sem motivo, olhar para o céu de manhã e sentir uma energia boa só de ver o sol e as nuvens rosadas.

Existe esse dom de enxergar os detalhes mais lindos que passam despercebidos e as surpresas boas, de procurar e encontrar algo a se admirar em cada um que cruza nosso caminho.

Essa resiliência que faz começar a semana de bom humor, encarar momentos difíceis como experiências que têm algo a nos ensinar e nos fazem mais fortes, não se importar com os olhares e as palavras venenosas das pessoas (e até se surpreender por isso).

Essa força que nos dá coragem para sair do “modo automático”, respirar fundo e correr atrás do que realmente queremos. Leva embora nosso medo e sofrimento, deixando só a confiança. E traz a certeza de que é possível, sim, continuar com os pés no chão – basta saber onde se pisa e dar passos mais largos.

Chame de Deus, de paz interior. Chame de inspiração ou a palavra que fizer mais sentido para você. Essa fé na vida, de se sentir presenteado e capaz a cada oportunidade, descobrir que se tem mais coragem do que se imagina e saber apreciar cada dia é, na minha humilde percepção, a verdadeira arte de ser feliz.

(Texto escrito em 2011, sem alterações.)