Túnel

Fecho os olhos e a escuridão me leva a um túnel. Ah, um longo túnel! A iluminação é um pouco irregular, cor de âmbar, e me permite enxergar apenas alguns metros adiante conforme sigo em frente, em passos lentos. De relance, observo nas paredes retratos de tantas e tantas pessoas que passaram por ali durante todos esses anos. Alguns discretos, outros que se destacam e aparecem diversas vezes em diferentes cenários. Há alguns livros empoeirados em um canto, com suas capas coloridas e páginas intactas, perfeitamente conservadas, apesar da poeira.

Dependendo da direção, diferentes cores podem ser vistas. Tons de amarelo, laranja, anil e verde embalados por melodias doces e sorrisos. Tons de azul, violeta e cinza serenos e silenciosos. Se prestar atenção, é possível ler algumas palavras escritas no teto irregular. Palavras que traduzem sentimentos, datas, teorias, dúvidas e nomes. Ouço o vento assoviando levemente, ouço gotas finas de chuva caindo. Através de uma fresta, enxergo um raio de sol e escuto também risos. Noto incontáveis pedaços de papel espalhados pelo chão, todos com diferentes mensagens e mesma caligrafia. Anotações do pensamento, imagino eu.

Tiro alguns sorrisos e lágrimas de dentro de uma caixa esquecida. Faz frio, que às vezes dá lugar a um calor que parece não querer passar. Tudo ali parece intocável, imutável e, ao mesmo tempo, a cada minuto novos objetos são deixados em algum lugar – ou talvez simplesmente tivessem passado despercebidos antes. Não sei. Não preciso saber. Aliás, ali não se sabe nem pensa em nada: simplesmente vê, sente e entende.

Depois de muito tempo caminhando, no fim do túnel – ou suposto fim, pois não se pode ver o que há além dele – uma sutil neblina revela uma alma.

(Texto escrito em 2011, sem alterações).

Química

Eu tenho essa mania de querer definir sentimentos. Não que eu conheça a todos e saiba categorizá-los com facilidade, apenas me inquieto com coisas indefinidas. Não deu para entender, certo? Vamos imaginar que, quando estou com quem quer que seja, há uma neblina pairando no ar. Rosa, verde, azul ou mesmo preta…

Pois bem, eu sei exatamente qual “cor” cada pessoa tem para mim (1: é mais fácil, obviamente, pensar a respeito disso quando estou sozinha e 2: sim, minha imaginação é meio esquisita, mas nós nos entendemos bem assim). Quando não tenho mais o que pensar da vida, fico tentando descobrir o significado das cores/pessoas para mim. É como se eu colocasse um pouquinho dessa fumaça em um tubo de ensaio e guardasse o líquido com uma etiqueta e o respectivo nome, sabe?

Poucos são os que marcam presença na prateleira. Todos os que estão lá possuem algum mérito, que geralmente não é mais que um detalhe aleatório que passa despercebido ou uma palavra dita no momento certo, ainda que por acaso. Todos os que estão lá são pessoas que me transformaram de alguma forma.

Sou um tanto extremista: ou gosto muito de você e desejo que tenha tudo de melhor na sua vida, ou simplesmente não ligo. Por isso, os frascos não costumam sair dali. Às vezes, por algum descuido ou acidente, as substâncias mais voláteis se perdem um pouco – outras, com o tempo, adquirem tonalidades mais bonitas e ficam mais concentradas.

E, bem, talvez por dentro eu tenha mesmo um laboratório. Só espero que as normas de segurança sejam respeitadas.

(Texto escrito em 2011, sem alterações.)

Paixão

“Escolha um trabalho que você ama e não terá que trabalhar nenhum dia da sua vida.”

Posso entender a boa intenção de Confúcio por trás dessa frase, mas confesso que a considero um tanto perigosa. Vou explicar por quê.

Eu me sinto privilegiada por, de fato, trabalhar com algo de que gosto muito: uma fusão de comunicação e tecnologia. Isso é consequência de escolhas que fiz ao longo da minha vida: investir tempo em escrever, estudar para tal e me posicionar dessa forma no mercado. Mas também é uma questão de oportunidades: felizmente, encontrei empresas que acreditaram em mim e se mostraram dispostas a pagar por algo que eu já fazia de graça.

Acontece que nem todo mundo tem isso à disposição. Às vezes, o que você ama é montar painéis de recortes e tecidos, conversar com velhinhos, assistir Netflix o dia todo ou modificar objetos – e não necessariamente alguém irá precisar que você faça isso a ponto de te oferecer um salário. Talvez seu passatempo até seja rentável, mas você ainda não se organizou para fazer dele uma profissão ou não recebeu uma proposta de emprego que permitisse deixar sua atual ocupação de lado. É muito, muito importante entender que isso não te torna um fracassado, um deslocado ou qualquer outra coisa. Não se sinta culpado por não estar “perseguindo os seus sonhos”.

Há também outro ponto: a partir do momento em que um hobby se torna uma obrigação, ele deixa de ser algo despretensioso. Você vai precisar fazê-lo em momentos que talvez esteja menos disposto e será mais exigente consigo mesmo em relação à qualidade. Isso cria uma pressão que não existia antes, e é preciso muito discernimento para separar as coisas. Um feedback negativo do seu chefe não significa que você estava enganado sobre o seu “talento”. Trabalho é trabalho, e sempre existirão momentos de frustração, estresse, cansaço. Faz parte do pacote.

Quando converso com alguém sobre este assunto, tento explicar ao máximo no que acredito: o ideal é encontrar algo que seja gratificante e flua da forma mais natural possível, para que a sua rotina se equilibre e não se torne, com o tempo, desgastante e insustentável. Cada pessoa pode encontrar seu próprio propósito, mas o propósito principal de todos nós é simplesmente ser feliz e – spoiler! – isso não está relacionado apenas ao que você faz para ganhar dinheiro. Ser bem-sucedido tem significados muito além desse.

Por fim, como em outros dilemas da vida, tudo depende do seu ponto de vista. Uma pesquisa (não tenho aqui o link mas vou procurar para incluir) entrevistou funcionários de um hospital responsáveis pela limpeza com uma simples pergunta: o que você faz? Enquanto alguns disseram “Só limpo o chão, nada demais”, houve quem respondesse “Eu promovo um ambiente limpo e agradável para que as pessoas possam se curar e se recuperar de doenças, e tenho orgulho disso”.

Faça o que você ama. Mas, especialmente, tente amar o que você faz. Prometo que, se não ficar mais fácil, pelo menos ficará mais leve.